sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

A CONSOLIDAÇÃO DA DEMOCRACIA CHILENA


Pela primeira vez desde o fim da ditadura do general Augusto Pinochet, em 1990, a direita deve voltar ao poder no Chile, desta vez pela via democrática. Apesar da popularidade recorde da presidente socialista Michelle Bachelet (80%), o empresário Sebastián Piñera, de centro-direita, lidera as intenções de voto. Essa aparente contradição é a expressão de uma espécie de "fadiga de material" de duas décadas consecutivas de poder da Concertación, a coalizão de centro-esquerda que uniu adversários históricos (Democracia Cristã e Socialistas) para superar o traumático período ditatorial e reconstruir a democracia no país. Sintoma dessa fadiga é o fato de o candidato governista ser o ex-presidente Eduardo Frei, uma figura apática e sem nenhum carisma.

Se a eleição de Piñera se confirmar, será a consolidação da democracia no Chile: depois de acabar com o "entulho autoritário" da era Pinochet - como os senadores biônicos e a impossibilidade de o presidente da República mexer nos comandos militares -, a Concertación estará consagrando o princípio democrático de alternância no poder.

E Piñera não é um neopinochetista: em 1988, quando a ditadura achou que poderia se consolidar através de um plebiscito, ele foi uma das vozes da direita a lutar pelo "não" a mais um "mandato" para Pinochet. Na campanha atual, o empresário-político conseguiu inclusive irritar os setores mais reacionários da coalizão que o apoia ao incluir na sua agenda temas comportamentais caros à esquerda, mas que ainda são tabu num país conservador como o Chile - entre eles o direito da união civil homossexual e a pílula do dia seguinte.
Piñera também está conquistando o apoio da classe média baixa, um setor emergente que se sente marginalizado pelo governo da Concertación. Além disso, sua imagem de empresário bem-sucedido e empreendedor parece ter colado nesse setor da sociedade chilena.

Uma incógnita do provável futuro presidente são as relações entre negócios e política. Empresário mais rico do Chile - ele é proprietário da LAN-Chile -, Piñera até agora deu poucos sinais de que pretende separar suas atividades empresariais dos negócios do Estado.
Se isso ocorrer, o conflito de interesses será será inevitável. Teremos um Berlusconi andino?

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

O HORROR, O HORROR


"Profeta, ou o que quer que sejas!

Ave ou demônio que negrejas!

Profeta sempre, escuta: Ou venhas tu do inferno

Onde reside o mal eterno.

Ou simplesmente náufrago escapado

Venhas do temporal que te há lançado

Nesta casa onde o Horror, o Horror profundo

Tem os teus lares triunfais,

Dize-me: "existe acaso um bálsamo no mundo?"

E o corvo disse: "Nunca mais"

(Edgar Allan Poe, O Corvo, tradução de Machado de Assis)

AS TRAGÉDIAS E A FARSA



"Hegel observa em uma de suas obras que todos os fatos e personagens de grande importância na história do mundo ocorrem, por assim dizer, duas vezes. E esqueceu-se de acrescentar: a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa". Karl Marx, O 18 Brumário de Luís Bonaparte



Nas décadas de 1950 e 1960, a direita brasileira se agrupou na UDN (União Democrática Nacional), partido de ideologia liberal-conservadora que considerava "perigosas" para o establishment oligárquico as políticas do varguismo de favorer os setores mais pobres da população. Os udenistas alegavam que tais práticas levavam ao descalabro no trato da coisa pública, adotando em contraposição um discurso moralista e, frequentemente, golpista. Eram as "vivandeiras alvoroçadas que vêm aos bivaques bolir com os granadeiros e provocar as extravagâncias do poder militar", segundo a gongórica e insuspeita definição do marechal Castello Branco. A ação da UDN resultou em duas tragédias: a primeira, o suicídio de Vargas, voltou-se contra eles mesmos; a segunda, o golpe de Estado de 1964, mergulhou o país num período de trevas que perdurou por 21 anos.

Depois da ascensão de Lula ao poder, mas principalmente depois do mensalão, tucanos e os demos tentaram repaginar o surrado discurso udenista ("pequeno-burguês", diriam os marxistas). Posaram de vestais. Ninguém os levou a sério, exceto, talvez, os leitores da Veja. Então, veio o "mensalão mineiro" - na verdade, tucano - mas eles continuaram a se fazer de arautos da moralidade. Agora, quando explodiu o escândalo do governador José Roberto Arruda (ex-tucano, atual DEM), caiu de vez a máscara dos falsos moralistas. E esse escândalo é uma Caixa de Pandora que ameaça espalhar merda no ventilador de outros líderes da oposição. Então, como felizmente não existem mais bivaques nem granadeiros, resta-nos a farsa das viúvas da UDN...

O 'ALAGÃO' DE SÃO PAULO: DE QUEM É A CULPA?


O governador José Serra e o prefeito Gilberto Kassab reagem como se não tivessem nada a ver com o caos provocado pelo dilúvio que desabou sobre São Paulo nos últimos dias e que causou a morte de 12 pessoas - até agora. O governador sumiu do mapa e seus acólitos jogaram a culpa na prefeitura (as tais bombas da estação elevatória de Traição); já Kassab culpou a natureza ("a chuva muito intensa") e ainda encontrou um "aspecto positivo" (sic) no aguaceiro: o fato de as obras da prefeitura terem "evitado" problemas ainda maiores. E parte da grande mídia, rápida no gatilho para cobrar responsabilidades quando se trata do Governo Federal, agiu como se em São Paulo não existissem poderes públicos.

O debate sobre as responsabilidades pelas consequências de desastres naturais é antigo. Como sempre lembra o Hélio Schwartsman na Folha, o mais memorável ocorreu no século XVIII e opôs dois dos maiores expoentes do Iluminismo, Voltaire e Jean-Jacques Rousseau. O motivo foi o Terremoto de Lisboa que, no dia 1º. de novembro de 1755, destruiu a cidade e matou cerca de 60 mil pessoas - a maioria sob os escombros das igrejas, já que assistiam à missa do dia de Todos os Santos. No Poème sur le désastre de Lisbonne (http://membres.lycos.fr/jccau/ressourc/fra18/lisbonne.htm), Voltaire se perguntava como Deus, onipotente, onipresente e benevolente, poderia ter permitido tamanha desgraça. Rousseau, em sua resposta ("Lettre sur la Providence"), argumenta que não havia como culpar Deus quando os responsáveis pela cidade permitiram que milhares de casas de seis ou sete andares fossem construídas numa área exígua. Ou seja, ele lembrava o fato, hoje comezinho - mas não para nossos insígnes administradores -, de que as consequências dos desastres naturais são inseparáveis do modelo urbanístico da cidade sobre a qual eles recaem.
Voltando à Paulicéia: na década de 70, o então prefeito Olavo Setúbal estimava em 30 anos o tempo necessário para que as obras de contenção de enchentes fossem concluídas em São Paulo. Parecia uma eternidade e, no entanto, o tempo passou e continuamos a ver, ano a ano, o espetáculo dantesco que atinge principalmente a população carente. O fato é que obras dessa natureza nunca foram prioridade para as nossas administrações municipais e estaduais.

Veja-se o que acontece agora. Desde 2006, a Prefeitura de São Paulo deixou de investir R$ 353 milhões em obras de combate às enchentes - cerca de 60% da verba total prevista para drenagem, canalização e piscinões. E o governo do Estado investiu menos da metade do previsto em obras na Bacia do Alto Tietê: R$ 71 milhões de R$ 188 milhões. Já para a construção de pontes, viadutos e publicidade oficial nunca falta dinheiro

Depois do terremoto, Lisboa teve um marquês de Pombal, que reconstruiu e remodelou a cidade, transformando-a numa das mais belas da Europa. Já São Paulo continua à mercê de políticos medíocres, cujo horizonte não ultrapassa o da minoria abastada da cidade.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

POIS É, PRA QUÊ?


Neste início de dezembro comemoram-se os 20 anos Revolução de Veludo, o movimento popular que derrubou pacificamente o comunismo na antiga Tchecoslováquia. A beleza e a generosidade daquela rebelião ficam ainda mais patentes quando se a compara com as sangrentas jornadas que acabaram com a ditadura de Nicolae Ceaucescu na Romênia, no Natal de 1989. Nos "saiba mais" publicados na mídia praticamente não se fala de dois personagens determinantes na Revolução de Veludo: o ex-presidente Václav Havel e o ex-líder comunista reformista Alexander Dubcek.
A trajetória deste último é digna de uma tragédia grega: como líder do Partido Comunista da Tchecolslováquia em 1968, Dubcek desencadeou um processo liberalizante que ficaria conhecido como Primavera de Praga, ou ainda, "socialismo de face humana". A iniciativa provocou a ira e o temor de Moscou, que esmagou a iniciativa com tanques do Pacto de Varsóvia em agosto daquele ano. Preso pelos soviéticos, Dubcek foi levado a Moscou e torturado, sendo libertado apenas pela valente intervenção do general Ludvik Svoboda, presidente tchecoslovaco e heroi de guerra. Ficou no ostracismo interno até retornar à cena em 1989. Morreu num acidente automobilístico em 1992. O dramaturgo Václav Havel, por sua vez, tornou-se um dissidente conhecido como um dos signatários da "Carta 77", documento que denunciava a violação dos direitos humanos da Tchecoslováquia em 1977, em pleno inverno da "normalização" soviética do país. Havel foi o principal líder da Revolução de Veludo, à qual se uniu Dubcek. Eleito presidente da República, o dramaturgo fracassou na tentativa de manter o país unido - a Tchecoslováquia deixou de existir em 1993, por influência de líderes demagogos dos dois lados (tchecos e eslovacos) - entre eles o atual presidente tcheco, Vláclav Klaus. Mas quem se importa com tudo isso hoje em dia? O novo CD da Lady Gaga é o que agita...
http://www.youtube.com/watch?v=sAhFBHeG-os (Pois é, pra quê?, Sidney Miller)

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

DEUS NOS LIVRE DOS ANJOS VINGADORES


E não é que o César Benjamin voltou, agora travestido de mártir? Depois de fazer uma acusação gravíssima contra o presidente da República, sem apresentar nenhuma prova, ele escreveu outro artigo na Folha - com direito ao mesmo pé biográfico inchado, embora googleano - na tentativa de justificar a "denúncia" anterior como um ato de resistência ao "culto à personalidade" de Lula. Para completar, o articulista conclui, quase mortificado, que talvez venha a ser "imolado" e que, se isso vier a ocorrer, "terá sido por uma boa causa". Quanto heroísmo! Quanto despreendimento!

A "boa causa" é discutível. Mas só a ignorância ou a má-fé falar permite falar em "culto à personalidade" de Lula quando os maiores veículos de comunicação, como Veja, as Organizações Globo e a Folha de S. Paulo, dedicam-se sistematicamente à tentativa de desqualificar a pessoa do presidente. Ou será que, por ter sido formado na escola stalinista do MR-8, "Cesinha" não conseguiu aprender o significado de "culto à personalidade"?


Benjamin brigou com o PT, entrou para o PSOL, foi candidato a vice na chapa de Heloísa Helena e depois brigou também com o PSOL. Agora, como articulista da Folha, parece ter mais passado do que futuro. Como certa esquerda radical fracassada e verborrágica, ele sofre de uma espécie de "sindrome de Savonarola". Quem? Girolamo Savonarola, frade dominicano da Florença do século XV que, possuído por um élan messiânico, pregava ardentemente contra a "corrupção moral" dos Médicis, dos Bórgias e do Renascimento. Uma vez no poder, Savonarola fundou uma república teocrática virtuosa, que transformou em crime desde o homossexualismo até obras de Boticelli. Também proibiu transações comerciais e o dinheiro. Acabou derrubado e imolado numa fogueira, mas seu exemplo calou fundo nas almas ressentidas, raivosas e sequiosas da vingança e justiça divinas. Robespierre e Pol Pot foram algumas expressões laicas desse desejo sangrento de pureza. Os tempos são outros e César Benjamin nunca chegará a tanto, claro, mas o que o move é a mesma ira santa desses "anjos vingadores". Deus nos livre deles...

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

O URUGUAI ENTRE DOIS JOSÉS

O Uruguai acaba de eleger como presidente um ex-guerrilheiro tupamaro, José Mujica, de 75 anos. Trata-se de um político conciliador, no melhor sentido da palavra, herdeiro do reformismo "battlista", movimento progressista liderado José Battle y Ordóñez, presidente do Uruguai por dois períodos (1903-1907 e 1911-1915). Foi o battlismo que transformou o Uruguai na "Suíça da América do Sul" - metáfora um tanto desbotada hoje pela xenofobia helvética. Graças à prosperidade e à pacificação política interna, o primeiro governo Batlle criou pensões e aposentadorias. Em seu segundo mandato foram instituídas a jornada de trabalho de oito horas e a isenção de impostos sobre bens de consumo, antecipando o Welfare State (Estado de Bem-Estar) que bem depois a Europa criaria para abrandar as desigualdades do capitalismo laissez-faire. A precoce laicidade do Estado uruguaio é um fato inusitado na América católica: em 1906, foram banidos símbolos religiosos de locais públicos e no ano seguinte foi instituído o divórcio (no Brasil, a Igreja impediu o divórcio até 1977 e na Argentina o catolicismo é religião oficial até hoje).

Entre 1973 e 1985 o Uruguai viveu o interregno de uma violenta ditadura civil-militar. A volta da democracia trouxe também as ilusões neoliberais que quase destruíram o país. A herança battlista só seria - parcialmente - retomada em 2004, com a eleição de Tabaré Vázquez, da centro-esquerdista Frente Ampla, numa eleição que também rompeu o condomínio bipartidário blanco-colorado. Mas Vázquez, mais conservador do que a Frente, vetou leis progressistas aprovadas pelo Congresso. Se tudo der certo, Mujica pode ser o Battle do século XXI.